Como assim, quem sou?
Há tempos abri mão de compreender a perversidade que compõe, como uma sinfonia macabra, todos os átomos depravados da tão chamada humanidade. Vaguei tristemente por todas as portas do meu pensar, tanto as gentilmente abertas com um leve toque quanto as arrombadas com enfurecida brutalidade, destruídas pela sede de entender a equação problemática que rege essa espécie tão débil. Ávido por um morno feixe de luz, um singelo floreio de harmonia, o regozijo de uma aquarela em mãos infantes, as cores que tão desesperadamente procurei pra pintar o mundo tão cinza e imundo que me cerca. Concreto, frio.
O ardor dos raios que cobriam-me carinhosamente pela manhã desfigurou-se numa frieza humilhante, melancólica. Tiramos a vida de tudo que tocamos, de tudo o que desejamos, de tudo o que, de alguma forma, conhecemos; ou achamos que tanto. Transformamo-nos na legião dos novos Midas, armados com o ímpeto de tornar tudo aquilo que queremos em completa desgraça. Uma legião de assassinos comandada por presidentes e missionários, bastiões da insanidade e da miséria, munidos de suas batas e bíblias ensanguentadas, seus armanis impecáveis e mont-blancs a luzir com imponência perante os olhos secos e hipnotizados dos que o suportam.
Submetemo-nos a decapitar com um sorriso maldoso a esperança tão necessária para simplesmente viver. Faz-me nauseado, também, a idéia de um criador: um ser dito superior disposto a parir, por piedade, uma doença maldita, corroída até seu último suspiro, sedenta e desgraçada. Iludidos, todos. Eu, tu, e ele, nós, vós e eles, numa frenesi espiral crescente, alucinada.
Seríamos, de fato, perfeitos e imaculados, se deixássemos de ser antes do desprezível existir.
Enfim.. quem sou eu? Eu sou você, e você não é nada.



