Thursday, May 29, 2008

Como assim, quem sou?


Há tempos abri mão de compreender a perversidade que compõe, como uma sinfonia macabra, todos os átomos depravados da tão chamada humanidade. Vaguei tristemente por todas as portas do meu pensar, tanto as gentilmente abertas com um leve toque quanto as arrombadas com enfurecida brutalidade, destruídas pela sede de entender a equação problemática que rege essa espécie tão débil. Ávido por um morno feixe de luz, um singelo floreio de harmonia, o regozijo de uma aquarela em mãos infantes, as cores que tão desesperadamente procurei pra pintar o mundo tão cinza e imundo que me cerca. Concreto, frio.


O ardor dos raios que cobriam-me carinhosamente pela manhã desfigurou-se numa frieza humilhante, melancólica. Tiramos a vida de tudo que tocamos, de tudo o que desejamos, de tudo o que, de alguma forma, conhecemos; ou achamos que tanto. Transformamo-nos na legião dos novos Midas, armados com o ímpeto de tornar tudo aquilo que queremos em completa desgraça. Uma legião de assassinos comandada por presidentes e missionários, bastiões da insanidade e da miséria, munidos de suas batas e bíblias ensanguentadas, seus armanis impecáveis e mont-blancs a luzir com imponência perante os olhos secos e hipnotizados dos que o suportam.
Submetemo-nos a decapitar com um sorriso maldoso a esperança tão necessária para simplesmente viver. Faz-me nauseado, também, a idéia de um criador: um ser dito superior disposto a parir, por piedade, uma doença maldita, corroída até seu último suspiro, sedenta e desgraçada. Iludidos, todos. Eu, tu, e ele, nós, vós e eles, numa frenesi espiral crescente, alucinada.


Seríamos, de fato, perfeitos e imaculados, se deixássemos de ser antes do desprezível existir.
Enfim.. quem sou eu? Eu sou você, e você não é nada.

Wednesday, February 14, 2007

Achei numa pasta aqui, tinha até esquecido.

Quem me dera ser juiz,
de tão belo sentimento.
Poderia jogar ao vento,
dúvida que me faz infeliz.

Mas, se de tal beleza sou capataz,
permita-me a ti dizer, querida,
que a presa, sempre corroída,
Fez-me escravo de forma voraz.

Papel de quem comanda, se inverte,
o árbitro, outrora soberano na conclusão,
encontra-se ajoelhado, mudo e inerte,
na eterna incerteza de sua decisão.

Suplico-lhe para que veja, a fundo,
O padecer e suplicar, dócil e sincero,
Marcado com escaldante ferro,
Num maltrapilho, roto e imundo.

Wednesday, November 22, 2006

Versão beta... trabalharei pra melhorar.


Fostes a maior decepção em minha vida!
Encantou-me com o puro brilho do olhar,
Deu-me por um segundo o direito de amar,
E abriu em meu peito a profunda ferida.

Por tão bela sina ajoelhei, inocente,
E nas linhas do papel e da escrita,
Retratava-lhe, linda e esplendente,
Antes de mostrar-se impura e maldita.

Vasculhava no labirinto de minha mente,
vestígios para lhe fazer a rima perfeita,
Cego, não via, deitada e nua em minha frente,
A imagem da desgraça em pura desfeita.

Fez-me de escravo como faziam os feudais,
De minha cegueira e agonia, gargalhava,
Sua doce voz, na tentação me chamava,
Para o falso aconchego de seus braços tais.

Por dias e noites vacilei, agonizando,
a Deus e querubins, implorava e pedia,
Para que deixastes de ser cálida e fria,
E ruisse à castidade do meu encanto.

Ao abrir os olhos, tomado pelo desgosto,
Cresceu no meu cerne o vínculo da ira,
Fez-me enxergar com clareza a mentira,
Maculada á perfeição em seu belo rosto.

Afrouxou-se a cortina de lindos cabelos,
Desfez-se em pedaços o ilusório arranjo,
Caíra o manto do mais belo anjo,
Tornaste a besta em meus pesadelos!

Monday, November 06, 2006

Dualité de Douleur


Enlouquecer? Razoavelmente aceitável. Entre ondas extenuantes navega a minha mente, por demais enjoada e exausta. A fúria do mar expele suas ondas sem dó numa jangada já fragilizada, com apenas um presente, remando com desespero para mantê-la em pé. Os ventos são cruéis, desmantelam o pequeno barco. Assoprados com dúvidas, receios e incertezas, me atiram embaixo d’água por segundos que me parecem horas, deixam-me imerso na agonia estática de não mais ver a superfície. A hesitação entre a escolha: o berrar enlouquecido de cuspir as verdades e as mágoas, enjauladas como um turbilhão dentro do peito, a nódoa pura e louca da confissão, digladiando frenética com a covardia passiva do mesmo que cobre as verdades com o lindo manto das mentiras, o medo passivo e covarde de quem não fala e omite por temer a perda de quem mais preza. Duas forças dentro do mesmo ser, a luta que não terá fim até que o orgulho seja conquistado, ou o feitiço da doce voz que acalma o orgulhoso guerreiro seja ouvida. Os ventos não cessam, as ondas aumentam, tomadas por uma força animalesca, quatro patas e dois chifres imensos destroem o pequeno bote. Já não passa de um pequeno pedaço de madeira, onde o homem se agarra com desespero. Não mais respira, sufoca nas águas da incerteza, agoniza inerte, preso á madeira, na água gélida, glacial. A besta não cansa, emana o fervor, bate as patas e mostra os belos chifres, atiça a dualidade, se diverte com o crepitar das chamas, queimando e consumindo as duas faces da máscara. Enquanto o eterno entrave na mente continua, o que parecia ser um abismo acaba com um baque surdo nas profundezas. Os ventos cruéis dão lugar á brisa morna, o frenético ardor cessa, os guerreiros soltam as armas, suas palavras e argumentos, a verdade gritante que procurou as fendas para escapar, a mentira formosa, pincelada com o falso consentir. A fera, num bater de patas, exibe seus chavelhos brilhantes e põe fim á sua sede de dor e dominação, satisfeita. Estendido, estuporado, dorme e descansa. Sua mente, arena da cruel decisão, repleta de farpas, cacos e lágrimas, aguarda o degradar do amanhã.

Friday, November 03, 2006

Tolices

Pra que tudo isso? Já se perguntou alguma vez? Todos esses obstáculos, cuidados e preocupações com pessoas que julgamos singulares! É muito tempo perdido, muito trabalho ao vento para tudo, algum dia, talvez dar errado. Quem precisa disso tudo!? Jogue tudo no lixo, pois nada disso interessa! Volte ás nossas origens, da qual não podemos escapar. Ora, somos animais, não!? Jogue fora nossa única diferença: o sentir, pois não serve pra nada. Destine-se a aproveitar as delícias da vida em excesso e em todo o seu regozijo! Faça como se deve fazer com uma sobremesa tentadora: Jogue-se em cima dela com voracidade, para que então possa sorver todo teu sabor, se deliciar com cada pedaço. O amor é para tolos e enjaulados. Para fracos, românticos e sentimentais. Saia por todos os cantos, aproveite todas as bocas, abraços, mãos e caralhos, todos os seios, quadris, pernas e bucetas. Use teu corpo para o prazer. Atire-se nos antros do aproveito, entorpeça-te de maneira vil e vergonhosa para então procurar o afago quente nos braços de um qualquer. Faça da tua vida a rotina do pecado. Concepção estranha essa, a do tal pecado... esmague-a também! Faça de ti um padre e um pecador, use o amor dito real para se pedoar e se benzer na graça divina da falsa auto-confissão. Torne esta a sua rotina, o seu viver. E então, quando a língua metida na tua boca se tornar um visco frio e pegajoso, quando os braços que te enlaçam transformarem-se em galhos ocos e vazios, quando o caralho em ti estocado fores apenas mais um pedaço de carne de um sem nome, lhe convirá olhar para os tolos e patetas, românticos e sentimentais, fracos e compassivos para, deseperadamente, procurar neles a peça que lhe falta.

Thursday, October 26, 2006

O sentimento é como a água, basta um pingo roto para contaminá-la. Um só gota para deixá-la envenenada, mortal. O recorrer aos meios físicos, o querer causar a dor, inflingir o sofrimento para que conheça o que me corrói. Estirar teu corpo sobre a cama, lençois brancos, abrir-te o estômago com um bisturi em brasas e subir vagarosamente, traçando um caminho por sobre seu corpo. Prender-te a pele com dois ferros escaldantes., deixar-te aberta para que se exponha á dor extrema. Agarrar um punhal afiado e cravar-te no coração. O físico é inerte, não sente a presença da lâmina. O sentimento percebe cada centímetro percorrido pela faca, adentrado no âmago do teu sentir. Escorrem poucas gotas, suficientes para te levar á loucura, para te fazer urrar de dor, enquanto penetro mais ainda, vagarosamente. Ver em teus olhos o desespero, o retrato da súplica, o querer-cessar. A mente se contorce em curvas bizarras, explode de agonia, faz-te escrava nas minhas mãos. Sofrera o bastante? Derramara tuas lágrimas sinceras pela matriz do sentir? Pego o martelo e cravo ainda mais fundo em teu peito, faço-te sentir atravessá-lo, ainda não fora o bastante. Teu corpo, lindo e formoso, desnudo sobre a cama. O sofrimento, crescente em suas entranhas, dilatando e esmoecendo suas vísceras. Ainda falta algo... Quero te conduzir ao meu recanto, te levar ao meu abismo de dor, um queda sem fim á um mar de lágrimas nunca vistas, desconhecidas... Com cuidado, coloco a mão no punhal. Violento, giro-o de chofre. Seus olhos reviram e encontram os meus, tuas lágrimas de dor se cruzam com minhas lágrimas de prazer, lágrimas de empatia. Retiro o punhal. Se contrai, e recosta, estirada na cama. Teu corpo continua lindo, liso, esguio nos lençois ainda brancos. Conheces agora meu interior, sabes que demônio habita dentro do meu peito. Dentro do teu, deixo marcado á ferro meu nome. Acorda, confusa. Olha á sua volta e nenhuma diferença percebes. Algo dentro de si, talvez... Olhas para mim, e para ti lanço um sorriso. Nos meus lábios escorre o gosto de lhe mostrar a dor. Te fazer conhecer por alguns segundos a dor que vivo todos os dias.

Tuesday, August 29, 2006

"Chego... caminho até a porta. A porta. Estranho vê-la como um simples recorte de madeira. Me parecia um obstáculo difícil, complicado, e agora estava ali, esperando para ser atravessado, simples. O último deles. Não era mais muro, nem barreira, era o último fio, separava o sonho, misterioso e instigante, do caminho até ele, a realidade. A maçaneta, gélida, lança-me um olhar cortante, desafiador, sem dúvidas esperava que eu avançasse para abri-la descaradamente, sem pudor, como um louco. Parado, analisei. Era um teste, queria me ver cair, jogar minhas cartas e meus desesperos. Resisti, levantei a mão, girei a pequena esfera. Empurrei. Momentos passam rápido. Este parou. Meu olhos encontram os dela. Silêncio. Um pequeno sorriso contido brota nos meus lábios. Ali estava, era, como sempre fora, como a perfeição o é, e sempre será. Hesito... Desisto, hesitar não matará a saudade contida no meu peito, querendo explodir em melancolia. Me aproximo, os olhos ainda juntos, no momento que perpetua. Corpos juntos, olhares, mais ainda. Meus braços a envolvem numa súplica silenciosa. O tocar que me tranquiliza, a pele que, junto á minha, me acalma. Meu rosto deita ao lado de seu pescoço, onde repousara, leve... Com um minuscioso meneio, subo meus lábios para seus ouvidos. O abraço, como o momento, perpetua. A boca não obedece as linhas, quer falar, sutil, somente para ela. Chego ainda mais perto. Um silvo sereno, viaja vagarosamente até chegar ao seu destino. Perpetua como o momento, como olhar, como o calor do abraço. Entrelaçado nesse silvo estava o mais sutil dos sentimentos, o mais sincero dos apegos, a mais pura das palavras. "

Fernando Torres